Durante minha imersão em Portugal, visitei uma das maiores operações de IoT do mundo. O que vi confirmou minha perspectiva sobre o que significa construir um negócio de Internet das Coisas escalável e sustentável.

Não vou citar a empresa, estou aqui para compartilhar o modelo.

Pilar 1: Conectividade como Base, não Produto

A operação de referência que visitei possui +165 milhões de dispositivos conectados e adiciona +2 milhões de novas conexões por mês.

Uma SIM global, uma plataforma global. A conectividade precisa ser:

  • Multiconectada e agnóstica — 2G, 3G, 4G, 5G, LPWA (CAT-M, NB-IoT). Não existe “bala de prata”. O caso de uso define a tecnologia.
  • Global — mais de 570 redes liberadas em 182 países. O dispositivo nasce conectado e continua conectado, não importa onde vá.
  • Resiliente via eSIM — provisioning e troca de perfil de operadora de forma dinâmica. Um único chip que se adapta ao melhor sinal disponível.

A conectividade pura já virou commodity. O diferencial está em como você a gerencia em escala.

Pilar 2: Ecossistema, não Produto

Aqui está o insight mais importante que tirei dessa visita:

“Não existem Produtos IoT. Existem PROJETOS IoT.”

A operação de referência não vende chips nem sensores. Ela orquestra um ecossistema com:

  • Plataforma centralizada com ferramentas de visualização e data lake, o cliente vê seus dados, não precisa construir infraestrutura pra isso.
  • Marketplace de soluções — dispositivos, sensores, chips, aplicações segmentadas, monitoramento. O parceiro especialista traz a solução vertical; a plataforma integra.
  • 7 centros de especialidade vertical — construções, logística, saúde, manufatura industrial, automotivo, seguros, agricultura. Cada centro com expertise profunda no segmento.
  • Redes Privativas (MPN) — para casos que exigem latência ultra-baixa e alta velocidade: realidade aumentada industrial, vídeo analytics, gêmeos digitais.

Um insight valioso: os suportes N2/N3 são SEMPRE do parceiro. Quem conhece o cliente de perto é quem produz o hardware ou aplicação. A plataforma não compete com seus parceiros, ela os habilita.

O parceiro é obrigado a assinar o projeto também. Isso mitiga risco de falência e troca de prestador de serviço. É gestão de parceiros, não apenas de contratos de clientes.


Pilar 3: Transformação Digital, não Produto

A operação de referência trabalha com abordagem de consultoria. Quando necessário, traz consultorias globais (tipo KPMG, EY) para diagnosticar o problema do cliente antes de propor a solução.

O caminho é:

  1. Diagnosticar — entender o problema real do cliente
  2. Projetar — desenhar a solução com parceiros especializados
  3. Conectar — garantir a conectividade resiliente
  4. Gerenciar — plataforma centralizada com visibilidade total
  5. Escalar — procedimentos de field service para cada cidade que precisar

De Tel.co para Tech.co

A transição de operadora de telecom para empresa de tecnologia é o movimento estratégico mais importante do mercado hoje em dia.

Quem ainda está vendendo chip e plano de dados como produto principal já está atrasado e perdendo uma fatia do mercado. O futuro é Everything as a Service — processamento de dados, armazenamento em nuvem, integração com inteligência artificial, tudo entregue como serviço completo.


O que isso significa para o Brasil?

O mercado brasileiro de IoT tem tudo para ser um dos maiores do mundo. Temos escala, temos demanda em agronegócio, cidades inteligentes, indústria 4.0 e logística. O que falta não é tecnologia — falta uma plataforma integradora que conecte os parceiros certos aos problemas certos.

Essa é a missão.